Limão Mecânico | Crítico. Ácido. Ultraviolento.


Workdesk
02/02/2010, 14:24
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Em tempos de crise, instabilidade e fúria da natureza manter-se em um emprego é uma tarefa complexa. Coisa que tem me feito refletir bastante ultimamente sobre onde estou e onde quero chegar. E também em como vim parar aqui.

O que se conclui dessa prolixidade mental é que o ambiente influencia muito mais do que se pensa (ou permite) e que é importante de fato, mantê-lo de forma mais agradável possível. Mesmo que o todo contribua para o contrário.

São singelos quase 2 anos, mas já abundam memórias e lembranças agradáveis. Do bom e velho vidro (e como faz falta!) até as antológicas rinhas na Pavlov. Tudo regado a escatologia, flatulências e discussões. Bons tempos, aqueles.

E inspirado nesse post, decidi mostrar uma imagem do ambiente de trabalho. Afinal, nunca se sabe até quando a gente vai estar por aqui.

O lugar singelo

Ainda é um lugar agradável. Mas já foi melhor.

Might Muggs

Might Muggs, no detalhe desfocado.



Impressões Argentinas
11/01/2010, 15:18
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Contrariando as expectativas e ignorando as superstições, 2010 começou ansioso.

Nem liguei pros fogos. Tava esperando mesmo era pelo amanhecer. Foram 3 meses de planejamento e economias. As 11 e pouco do primeiro dia do ano, estaria voando pela segunda vez para o território argentino.

Bienvenidos

Com os já tradicionais atrasos, o vôo saiu pouco depois do meio-dia. Chegamos na Capital Federal (como eles dizem lá) por volta das quinze. E no dia primeiro, lá estavam, eu e ela procurando por um hotel barato, em uma cidade com pouquíssimas coisas funcionando. Achamos um bem simples e muito agradável. E pela bagatela de 80 pesos (algo como 40 reais) nos hospedamos por todos os dias.

Dizer “conheci Buenos Aires” soa eufêmico. Afinal, a cidade é grande e normalmente não se transcende a região que aparece nos mapas que distribuem nos hotéis e pontos de informação. Sem muita propriedade, posso dizer que conheci alguma coisa de alguns lugares, os mais visitados pelos turistas cafonas de bermudinha no joelho, papete ou mocassin com meia na canela, camisas floridas e garbosas câmeras fotográficas penduradas no pescoço.

O que dá pra se dizer é que é uma cidade plana em sua área central, com ruas e avenidas imensas, que passam por 3 ou 4 bairros, bem suja (cachorros não usam papel higiênico tampouco dão descarga) e nesta época do ano, quente e úmido pra cacete. Um calor que gruda.

Um camarada que esteve comigo lá da primeira vez disse que a cidade cheira algo como incenso misturado com Durepóxi (aquela massinha nojenta que era usada pra colar coisas). Faz sentido. Outra pessoa, que conhecemos lá, disse que a cidade a modernidade ali é como uma erva-daninha sobre a arquitetura rústica. Também faz sentido. Acredito que São Paulo seja um pouco mais desenvolvido do que Buenos Aires e conservou menos de sua arquitetura histórica.

As viagens que fiz foram extremamente diferentes. A primeira, em abril do ano passado, foi uma espécie de descabaçamento internacional. Malícia zero e porrada pra todo lado, no sentido de que se você não conhece nada, acaba apanhando muito pra aprender alguma coisa. Fui com um amigo e fiquei por lá apenas 5 dias. Pouco, pra conhecer os lugares mais legais sem correria.

Desta vez, já conhecendo um mínimo do terreno, foi mais fácil de se achar por ali. Fui com ela e procurei dar mais atenção aos lugares que não havia estado na vez anterior. Fiquei mais tempo também, 8 dias. Cada uma teve seu significado e se completam em seu contexto.

Rango, goró e derivados

Comi bastante em Buenos Aires. Inclusive quem convive comigo já notou. A Capital tem muitas opções de rangos pra todos os gostos e bolsos. O grande destaque são os bifes de chorizo, imensos e com 3 polegadas de altura. E tem as milanesas também imensas e oleosas, aquelas com quem você conversa a noite toda, quando vêm acompanhadas de cerveja. E por falar em cerveja, mande uma tradicional e tão-falada Quilmes. É mesmo bem agradável.

É um pouco mais difícil ser vegetariano lá, mas vi uns lugares que vendem milanesa de soja, tanto de caixinha, naquelas linhas de dietas saudáveis, quanto em bares e restaurantes. Definitivamente, passo.

Mas de todos os lugares que fui, com certeza um que merece ser destacado é o Ugi’s, uma pizzaria com diversas filiais pelas quadraturas de Buenos Aires. O lugar não é nenhum primor, muito pelo contrário. Mas é justamente aí que se encontra o segredo do sucesso. Não espere variedades de sabores, tampouco o glamour de uma Pizza Hut da vida. Ali só tem de mussarela, servida numa forma de metal e você come com aqueles guardanapos de sulfite, tipo de banca de pastel de feira. Mais roots, impossível! O atendimento é mau-humorado — perguntei se tinha pizzas (dããã!), no sentido de elas estarem prontas — e o cara quase me jogou canivetes com o olhar. Aliás, o mesmo cara que faz as pizzas, atende ao público, é o caixa e (acredito eu) limpa o pico. Ou melhor, não limpa. As mesas estavam bem empoeiradas e o banheiro se encontrava em estado paupérrimo. Todavia, o sabor da pizza era simplesmente inacreditável.

E tinha mais: empanadas, medialunas, alfajores. Vovó Mafalda morreu feliz.

Conclusões argentinas

Coisas que vivenciei por lá e não poderia deixar de anotar aqui, senão não ia dormir em paz:

  • Brasileiro é praga em Buenos Aires. Gafanhoto. Formiga. Tem por toda a parte. Quando você menos espera, ouve uma palavra em português, com sotaque carioca ou mineiro. Mochileiros, ou os enfadonhos ricos emergentes, do tipo figurantes do Programa Amaury Jr., com seus filhos insuportáveis criados a leite-com-pêra-e-ovomaltino, são os mais tipos mais comuns.
  • Bobagem você ir pensando que lá é tudo muito barato e que vai comer no McDonalds com 2 pesos. Esqueça o que se fala por aí. As coisas lá são caras, principalmente eletrônicos — uma TV LCD defasada custava mais de 5 mil pesos! Os outlets são parecidos com os daqui (pelo menos os da Av. Córdoba) e não vi taaaanta vantagem assim em se encher de sacolas. Esqueça o consumismo e aproveite a viagem.
  • E falando em grana, nunca deixe pra trocar os seus preciosos reais por pesos nas casas de câmbio de dentro do aeroporto. Eles enfiam a faca sem pudor.
  • Os ônibus de lá são mais velhos e tem um sistema meio tonto de cobrança de passagem. E se você odeia o metrô daqui, vai voltar querendo fazer declarações de amor à Estação Brás. O de lá é bem menos asseado e igualmente lotado. Inclusive tem uma linha com um infame metrô de madeira (ou quase isso) cujas portas você abre manualmente. Bizarro.
  • Freddo é melhor que Häagen Das. Aliás, Freddo é muito melhor que Häagen Das. Indiscutivelmente. Se discorda disso, tome um de Dulce de Leche Tentación e mude de ideia.
  • Fica a dica ir aos seguintes lugares: Puerto Madero (o entardecer é incrível), o Zoo, a Faculdade de Derecho, logo ao lado está a Plaza de Las Naciones Unidas, a que tem a flor metálica, a Biblioteca Nacional e o Cementerio de La Recoleta, o lugar que achei mais legal. Inclusive, vale muito a pena acompanhar uma das visitas guiadas gratuitas que oferecem ali. Você acaba aprendendo muita coisa bacana sobre o cemitério, suas peculiaridades e a história local.

Pieguice à parte, tudo o que aconteceu foi incrivelmente único e fez da viagem algo que será inesquecível. Até mesmo o fato de eu ter ido com um tênis novo que carcomeu meu pé (buuurrrrrooooo!).

Voltei ao Brasil satisfeito e saudoso, esperando voltar lá novamente. E orgulhoso por não ter ido a nenhum kiosco pedir por uma Cueca-Cuela.

PS.: Pra conferir umas fotos dessas viagens, dá uma olhada aqui.



Pacotão de fim de ano
30/12/2009, 17:15
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É. 2009 foi intenso. Assim como em todo ano, acontecem coisas marcantes e  de fato, a vida ganha novos rumos. Nossas percepções mudam e tudo passa a ser visto de outra forma. E embora a filosofia sobre o tempo seja encantadora mas o post não é sobre isso. É uma retrospectiva clichê ao melhor estilo todo-mundo-faz-posso-fazer-também.

Em 2009 cortei o cabelo. Tatuei cagadas que vão demorar mais de um ano pra serem corrigidas, mas quem acompanha o processo disse que vai ficar bom. Graduei na faixa marrom e participei de demonstrações de kung fu.

Tive relações e não-relações com a mesma pessoa. Fiz minha primeira viagem internacional. Me reaproximei de amigos perdidos e fiz novos, de igual valor. Notei que as roupas de 2008 não me servem mais. Registrei coisas sem valor num blog inútil.

Aprendi que dá pra ser um pouco mais tolerante. Tomei decisões e voltei atrás em algumas delas. Vi a Disney comprar a Marvel e a firma que me emprega de forma secundária se fundir à outra. Descobri que o valor das coisas não tá no tempo e sim na essência. E também que o tempo é o melhor mertiolate pra tudo.

Vi filmes legais. Li HQs legais. Ouvi o som de bandas-foda, novas e velhas. E resolvi falar deles. Então aqui vai o Top-Qualquer-Nota do que mais gostei e do que me influenciou neste ano — não necessariamente de coisas lançadas em 2009.

Mesmo Delivery: Roteiro simples e insano, cheio de referências legais (e que infelizmente se tornaram cansativas na mão de pessoas que simplesmente acham que usar referências pop garantem boas obras — o que não é o caso nessa) e uma arte direta, bonita, que fala por si só.
É. Talento é pra quem tem.

A Hora da Estrela: Clarice Lispector sempre garota-enxaqueca. História incrível.

Them Crooked Vultures: Despertou ansiedade assim que surgiram os primeiros boatos do supergrupo (termo detestável, aliás), formado por Josh Homme, Dave Grohl e John Paul Jones.

Desde que fiz o download ilegal do álbum na rede, não tem um dia que não ouça pelo menos uma musiquinha.

The Dead Weather: Jack White, assim como Josh Homme, é um cara que acerta a mão nas suas bandas e projetos. Esse, em parceria com a Alison Mosshart, do The Kills.
Referência.

Flaming Lips: Determinado momento no meio do ano, o melancólico Yoshimi Battles The Pink Robots foi a trilha sonora.

Beck: Nem preciso dizer nada, apesar da influência em 2008 ter sido maior.

David Bowie: Continua sendo contemporâneo, com seus sessenta e tantos anos.

Muse: Pra quem acha que não passa de um cover do Radiohead, ouça Orign of Simmetry e mude de ideia.

Guitar Hero: Horas gastas e performances já no Hard. Advanced ainda é uma realidade distante.

Black: O melhor jogo de primeira pessoa pro Playstation 2. Não tão bom quanto Call of Duty 4, mas uma ótima válvula de escape, se você tá a fim de fritar a tanga de uns terroristas babacas.

Resident Evil: desde o PSOne faz parte da minha vida e dificilmente sairá em 2010. Acordo todas as manhãs esperando que as pessoas virem zumbis ou monstros mutantes.

Watchmen: A HQ não deveria ter sido adaptada pro cinema nunca. Mas a adaptação valeu a pena. Tem suas  falhas, mas no final é uma obra de grandiosidade ímpar. Tanto pelo contexto, quanto pela coragem de realizá-la.

Bastardos Inglórios: Naqueles dias de raiva do metrô e da chuva, vai dizer que nunca pensou em descontar sua raiva em alguém, aleatoriamente? Então, esse filme é o que você gostaria de fazer com Hitler se ele não tivesse sido cuzão o bastante pra ter se matado.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças: A gente sempre se enxerga nesses casos.

Donnie Darko: Histórias sobre universos paralelos. Precisa mais?

Ademais, as influências continuam em 2010.

Feliz ano que vem pra todos.



Pra ouvir por aí: Queens of the Stone Age – Songs for the Deaf
03/12/2009, 16:20
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Esses dias saiu o play do Them Crooked Vultures. Já tinha visto alguns clipes no Youtube e tava ansioso pra ouvir no iPod.

A ansiedade valeu. O álbum todo é bem foda. Tive a mesma sensação em 2002.

Em 2002 ainda assistia TV.

Em uma manhã descompromissada de sábado, migrando de canal em canal naquela Mitsubishi 20″ velha com sua garantia até a Copa de 1998 expirada, sem querer, parei na MTV.

O clipe que tava na tela era acidamente engraçado, evolvendo o atropelamento de um cervo, escoteiros e renas de Natal. Durante o clipe, reconheci o Dave Grohl. Logo associei o som àquela banda que tinha tocado no Rock in Rio III, cujo baixista careca e com barba de bode tinha sido preso por tocar sem roupa. Também tinha lido alguma coisa sobre o lançamento desse play no Omelete, que ainda era “para comer e zoar”.

Esse foi meu primeiro contato com o Queens of the Stone Age, que desde então se tornou uma das minhas bandas favoritas.

Música pra surdo ouvir

O disco parece uma sessão de rádio, com direito a muitas mudanças de estação, ouvida numa pickup produzida pelo seu imaginário, naquelas rodovias poeirentas inspiradas em Um Drink no Inferno.

Queens of the Stone Age - Songs for the Deaf

Queens of the Stone Age - Songs For The Deaf

O álbum soa homogêneo, ao mesmo tempo em que suas músicas oscilam entre pura pancadaria, como em Six Shooter, First It Giveth e Hangin’ Tree e um rock’n'roll de pub, como em Gonna Leave You e Another Love Song. A sonoridade é densa, cheia sussurros e mensagens subliminares (ouça God is in the Radio ao contrário) e a bateria de Dave Grohl está melhor que em qualquer Nirvana. Em Song for the Dead, ele emula um Led Zeppelin pra moer qualquer ouvido e as guitarras sujas de No One Knows, perfeitamente sincronizadas, remetem ao rock dos anos 1970. Difícil eleger uma preferida.

Definitivamente, um disco pra ser ouvido inteiro, sem interrupções.

Mil formações

Naquela época o Queens era diferente. Aliás,  já teve pencas de membros. Chegaram a se apresentar como trio, quarteto, quinteto, sexteto.

A de Songs for the Deaf pode ser considerada a melhor formação de todas. A base vinha do disco anterior Rated R, de 2000. Além do Josh Homme , Mark Lannegan que era do Screaming Trees (que conheço pouco) e Nick Olivieri também cantavam. E tinha temporariamente Dave Grohl na bateria (depois da turnê de estreia do disco, Dave voltou pro Foo Fighters e entrou no seu lugar, Joey Castillo). Nick Olivieri foi chutado da banda tempos depois, Mark Lannegan também saiu e dessa formação, ficou apenas Troy Van Leuween, o segundo guitarrista. Josh voltou a segurar os vocais sozinho, contando com colaborações esporádicas.

As mudanças repercutiram no som da banda. Não que não houvesse identificação com os atuais integrantes, mas parecia que estavam recomeçando do zero. E nos discos seguintes — o mediano Lullabies to Paralyze (em 2005) e o bom Era Vulgaris (em 2007) –  não conseguiram repetir a mesma essência dessa obra-prima. Ainda assim, continuam no meu singelo rol de preferidas.

Recordação

Assistindo a alguns vídeos dessa fase no Youtube, soava mais pesado e mais agressivo. Cortesia do vocal rouco de Lannegan.

É como descontar no ouvido aquela vontade de chutar a bunda daquele seu companheiro de trabalho com bacon no cabelo, que não para de falar asneira.

E nunca dê ouvido a esse tipo de lista. Esse álbum é pra estar no mínimo entre os 2 primeiros.



A abolição da televisão
25/11/2009, 18:32
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Por um bom tempo, procurei por uma TV de LCD. Horas e horas gastas nas lojas virtuais (e não-virtuais) da vida, pesquisando preços, condições de pagamento, especificações. Como se já não vivesse isso quase o dia todo, fiquei especialista em descritivos de TV. Mais precisamente nas taxas de contraste e quantidade de entradas HDMI.

Meses depois do início da garimpagem, enfim, adquiri uma razoável. Pra quem é, tá bom demais. Instalei e logo ela cumpriu seu propósito de alienação: pendurar o DVD Player e o bom e velho Playstation 2.

 

TV de enfeite

Faz tempo. Desmotivei com a televisão e sua programação. Acho tudo realmente muito chato. Não curto nenhum programa de auditório, reality show sem graça, novela das 8, das 9, das 10, das 11, telejornal tendencioso e muito raramente me interesso em acompanhar séries — sequer tive TV a cabo até hoje. Quando alguma me atrai, procuro em DVD.

Nem a MTV dá mais pra assistir. Seus programas pseudohypes apresentados por leitores de teleprompter qualificados (a.k.a. dublês de VJ) são desinteressantes e o VMB é sempre a mesma bosta.

Então, no máximo da normalidade, perdi o peitinho da modelo-mulher-do-cantor-semifamosa que tá confinada na pilha de esterco de artistas no ostracismo e a trilhonésima reportagem superlegal quase-crítica, com o jornaleiro careca quase-cult-engraçadão da PQP. Motivos pela qual não me arrependo de não ter comprado uma antena junto com a TV.

 

Sinceramente, nem preciso perder meu tempo assistindo à telinha luminosa. Pra ficar sabendo o que rolou, basta dar um rolê por aí. As pessoas falam mais alto que os fones de ouvido. E tem a Internet.

Quanto aos que “xingam”, o discurso é o de sempre: a programação da TV aberta é um lixo, o Faustão é insuportável e a Luciana Gimenez não sabe nem ler. Disso você já sabe. Qualquer um que fale qualquer coisa, não transcende o mais-do-mesmo.

 

Liberdade de expressão. Assim como eles falam merda em rede nacional, escrevo aqui minha opinião irrelevante. O lixo tá aí, em todo lugar. Assiste quem quer. Lê quem quer.

E enquanto lê essas palavras dispensáveis, os incríveis programas patéticos disputam ponto-a-ponto seu ibope.



A saga das tattoos inacabadas – parte 3
20/11/2009, 16:53
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Abril de 2009.

Mês do outono. Mês do aniversário. Mês do dito inferno astral.

Um mês depois do episódio de dois posts atrás, lá estava eu caçando estúdios de tattoo, pensando em fazer coisas novas e com uma vontade absturda de arrancar a pele do meu braço esquerdo, na esperança de que ficasse branca novamente. Deixa pra lá.

Minha menina

Depois de uma garimpagem, achei um estúdio decente, no Tatuapé, pra variar. Conversei com o tatuador e rolou a primeira ideia. Uma pinup. Uma sessão depois, ela tava lá. Realmente, um trampo decente. O primeiro em milênios. De dar orgulho.

Ok, mas e os dados? E a andorinha-pardal-pomba? Ficaram lá, pra um retorno futuro e com uma ideia fixa. Retorno esse que só aconteceria meses depois. Nesse meio tempo, a grana ficou curta e surgiram outras prioridades.

Uma rosa nasceu em cima do Nouass

Quando me dei conta, já era junho. E ouvir: “… essa sua tattoo é antiga? Nunca vi ela no seu braço…” ou “…o que é isso no seu ombro? Uma pomba?” tava se tornando ainda mais incômodo do que a experiência anterior. Aquela do terceiro post.

Era preciso agir com urgência.

Como o tatuador tava com excesso de preciosismo, fui procurar outro estúdio. Dessa vez, na Galeria do Rock. Cheguei até a conversar com um cara de estilo parecido, mas não rolou. Devo ter sido amaldiçoado pelo Criador no quesito tatuagem.

Não dá pra entender muita coisa, mas tá melhor que antes

Voltei lá com outra ideia. Dessa vez rolou.

Nessa brincadeira, as semanas se sucediam. Sessões depois, o desenho tava semipronto. Ou os traços, pelo menos.

Naquela altura, o significado da parada já era outro. De jogos (sorte ou azar — mais pro segundo), tinha se tornado o tempo e o que se aprende com ele. Então, sobre os dados, uma ampulheta. Sobre a andorinha-arara-cuco, uma rosa. Mantiveram-se os elementos old school, atemporais. E o resultado ficou satisfatório.

No fundo, é o preço que se paga por ser impulsivo e por fazer as coisas sem planejamento. Aprenda essa!

 

Agosto/ Setembro de 2009.

Procurei novamente o tatuador pra colorir o trampo, mas ele tava pra sair do estúdio. Semanas vem e vão e nada. Quando liguei novamente, ele já não estava mais lá. Tava migrando pra outro estúdio, mas iria manter um espaço na casa dele pra terminar trampos e tatuar chegados. Como eu tava na primeira categoria, esperei ele montar a parada. Marquei um dia. Ele desmarcou depois

Quando parece que rolaria, chegou outubro e dessa vez eu me comprometi com o kung fu. Mais um mês se vai e nada. Depois foi o Planeta Terra e outra desmarcada.

E agora? Vez ou outra, nego pergunta: “… e essa tattoo aí, não vai terminar não?”. Não é da sua conta. Não quero falar pra ninguém que tá agendado pra um dia aí, só pra não rolar um agouro. Ao que parece, essa saga ainda tá longe do final.



Pra ouvir por aí: Beck – Sea Change
18/11/2009, 17:59
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Na primeira metade dos anos 1990, Beck despontou pra mídia com um disco que acabou se tornando sua marca registrada. Mellow Gold, álbum que mistura hip hop, elementos do folk, samplers, remixes e ruídos incômodos trouxe além de outras preciosidades, o hit Loser, talvez o mais conhecido de seu amplo repertório.

Os álbuns seguintes usaram a mesma fórmula, principalmente Odelay, de 1996 (clássico absoluto) e Midnite Vultures, de 2000. A exceção é Mutations, de 1999, cuja sonoridade está mais pro folk.

Em 2002,  foi lançado seu oitavo disco de estúdio: Sea Change. Diferente de seus antecessores, é um álbum de base acústica, com muito pouco daquilo que se tornou o DNA de sua música.

Em mutação

Esqueça a sonoridade suja e descuidada de Stereopathetic Soulmanure ou o violão desafinado de One Foot In The Grave. Influenciado na raiz pelo final do relacionamento com sua então namorada, a designer Leigh Limon e pela sua conversão à Cientologia, a princípio pode parecer um álbum chato, parado demais e talvez você precise ouví-lo mais de uma vez para captar sua essência. Depois de digerido, Sea Change se torna muito mais do que o que aparentemente é.

Beck - Sea Change (2002)

As letras recheadas de ironia dão lugar a frases introspectivas e melancólicas, que transparecem cansaço e desgaste. E os samplers barulhentos se tornaram suaves melodias em violão e arranjos orquestrados.

É um disco repleto de pontos altos, como a emocionante Little One e abelíssima All In Your Mind. E enquanto Lonesome Tears e Guess I’m Doing Fine são a tradução da dor da perda, Lost Cause é a resposta quando perguntam porque seu relacionamento acabou.

Talvez seja necessário um desses momentos melancólicos pra interpretar tudo isso. Todavia, Sea Change é um disco pra ser ouvido sempre. Seja em seu melhor momento ou em meio a lágrimas solitárias.

Coisas interessantes

Durante a turnê de lançamento desse álbum, Beck contou com os Flaming Lips como banda de apoio.

Vai aí um registro raro deles tocando Little One. Coisa fina.



A incrível tática do vendedor de chocolate do trem do ABC
17/11/2009, 12:57
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Desde o ano passado, pego o trem das onze pro ABC. Antes era a linha sei-lá-o-quê. Agora é linha 10 – Turquesa.

O Brás é um lugar infernal que merecia ser implodido, fato. Trilhares de pessoas passam por ali diariamente. Entre eles, eu.

Normalmente meu itinerário varia. Ora pego ali, ora no Ipiranga. Mas o destino final quase sempre é São Caetano do Sul. Santo André só quando vou pra casa dela.

Mas o grande lance disso tudo, dessa vida no trem é o tipo de organismos que ele produz e prolifera. Toda a sorte de seres que beiram o folclore, inseridos num contexto urbano e real. Vagabundos, cantores desafinados, pregadores do evangelho de alguma coisa, pedintes, vendedores. Tem o velhinho da flauta, o vendedor de cortador de unhas, o de ralador de batatas, o de lanterninhas, os de amendoim, cerveja e os de chocolate.

Mas um destes, de chocolate, se destaca na multidão. Não porque tenha um visual além do trivial. Pelo contrário, é bem do tipo comum. Ok, a mechinha no cabelo à lá Chimbinha parece ser proposital, mas ainda assim, não é o suficiente pra qualificá-lo como um freakshowman, como muitos por aí. O que o qualifica como tal é sua infalível tática de venda de chocolates de diversos tipos. Coisa que pude presenciar por pelo menos, umas dez vezes, nas idas e vindas desse distinto latão de sardinha sobre trilhos.

Eis que adentra ao vagão o sujeito, anunciando sua novidade, normalmente associando o produto à alguma grande rede varejista. Também faz questão de ressaltar sua marca e a qualidade do produto, até quando o chocolate é feito de gordura hidrogenada e açúcar. Algo do tipo: “… pessoal, ó aqui pessoal, quem teve ontem no Carrefêur, teve a chance de presenciar o lançamento desse chocolate. Parmaleite. É gostoso, é qualidade. Chocolate de primeira. No Carrefêur tá oitenoventenove, mas na minha mão só paga cinco. Só cinco…”. Inclusive, mesmo que vá vencer amanhã daqui a uma semana, “… tá no prazo de validade…”

Enquanto caminha de um lado pro outro do vagão, observa por aquela janelinha que fica normalmente nos fundos e sem a menor inibição ou pudor algum, simula com atuação digna do Oscar: “… ih! Os caras tão ali no outro vagão… Putz, acabei de abrir a caixa…”.

Quem está no vagão se comove com o “drama” do vendedor. Tática ilegal. Os seguranças levam mesmo a mercadoria embora. Pobre pai-de-família, vai perder tudo. Poxa vida, o que fazer, então?

“Pessoal, o rapa tá ali do lado e eu não vou perder a mercadoria. Vamos fazer o seguinte: era cinco, agora tá dois. Pra acabar. Dois leva. Me ajuda aí pessoal, pra eu não perder a mercadoria… Pra acabar, pra acabar, era cinco, agora é dois…”

E assim se sucede. Os passageiros vasculham suas bolsas e em polvorosa clamam pelo vendedor, como se ele fosse um missionário desses milagreiros, dos canais UHF de televisão.

Aos poucos, consegue atender a todos, sempre sorridente e hiperativo. Inclusive, repete de forma cansativa que o chocolate é bom e que ele tem que se “desfazer” da mercadoria pra não perder. E vende mais uma caixa. Mais um vagão comprou de seu chocolate. Todos estão redimidos de uma vontade até então inexistente. O apelo fala mais alto e é fácil convencer pessoas com um simples joguete psicológico. No país do desemprego e da vida difícil, o que são dois mangos em sua carteira?

Confesso que até fiquei comovido da primeira vez. Triste fato ver os seguranças tirarem vendedores do vagão. Pessoas que tem família e veem naquilo sua única forma de renda ou que simplesmente não tem qualificação escolar (leia-se diploma) o suficiente pra um emprego num escritório com direito a ar-condicionado e vale refeição.

Mas, voltando ao vendedor, agora ele está satisfeito. Vendeu tudo. Zerou seu estoque. “Venceu” o rapa que só os inteligentes podem ver.  Rola uma sensação de catarse. É a vitória do proletariado sobre o Estado opressor, que não permite ao pobre cidadão comum burlar uma mera regra do trem, a do proibido vender mercadorias pra sobreviver. Vitória dele e de todos os que compraram seu chocolate por uma pechincha.

Sai do vagão até o próximo, quando seu discreto ajudante, que protege o restante da mercadoria, saca de sua surrada mala de viagem mais uma caixa fechada. E como um missionário dos canais UHF, sua convincente pregação recomeça.



A saga das tattoos inacabadas – parte 2
16/11/2009, 12:31
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Março de 2009.

Anos após meu primeiro trauma-fiasco com tatuagens, lá estava eu, pensando e pesquisando desenhos new school para o braço esquerdo.

Também estaria procurando um tatuador, se àquela altura do campeonato não tivesse descoberto. E “melhor”: trabalha no mesmo recinto.

Como o episódio anterior não vai sair da minha cabeça (tampouco do meu ombro) tão cedo, fui com calma averiguar de quem se tratava. Sujeito simpático, boa praça, pai de família. Começou tarde no ramo da tatuagem. Antes tarde do que nunca.

Conversei sobre as ideias. E apesar de não estar confiante em mim mesmo do que queria fazer, escolhi alguns desenhos. O primeiro era um Ás de Espada flamejante, que pouco depois foi abortado. Então, se sucederam milhões de pesquisas no Google (me odeio por fazer isso).

Indecisão, indecisão. Onde foi parar?

No final das contas, decidi fechar meio braço com tattoos baseadas em jogos. Então seriam baralhos, dados, pinups, elementos old school. Coisas cujo significado estariam relacionados a não ter medo de arriscar. Inclusive com tatuadores…

Confiando no elemento-surpresa combinei o dia, me encontrei com ela e fui até até Mauá, longe pra caralho (mas assim, longe mesmo), pra fazer o trampo.

andorinha pardal

Andorinha ou pardal?

E lá estava eu, na sala do tatuador. Só que dessa vez era limpinho. Mas ainda assim rolava uma tensão e a vontade de desistir. Devia ter feito isso. Principalmente quando vi que os testes iniciais com a maquininha pareciam não estar indo muito bem. O problema era o psicológico. Não podia dar pra trás ali. Afinal, se foi até o inferno, não faça desfeita. Senta e toma um chá gelado com o Demo.

Tava um calor tipo o de ontem. O decalque não ficou legal. E mesmo assim, mandou ver. Quer dizer…

Com alguns minutos tatuando, a até então infalível maquininha, falhou. E falhou. E falhou de novo. Lá estava eu, com meia tatuagem riscada, pensando: “… acho que já vi esse filme antes…”. E mesmo sendo avisado constantemente do perigo iminente por minha incrível percepção, me mantive ali. Firme e forte. Indivisível. Insatisfeito.

Os riscos seguintes serviram pra demarcar onde estava o desenho original. Se bem que, era melhor que nem tivessem sido feitos.

Se Deus joga dados, não sei, mas os que estavam no meu braço não atingiam de longe o nível de satisfação. E na roda da fortuna (“negô!” — piada interna ensaboada), posso dizer que foi melhor assim.

Isso tudo num mês. Acontecendo de novo. Isso porque sou um xiita perfeccionista e criterioso. E agi como uma múmia. Deve ter sido a porra do “Inferno Astral” ou coisa do gênero.

As semanas se sucederam e o “…posso ver sua tattoo?” começou a encher o saco. Ver mais uma vez traços tortos de uma tattoo recém-traçada, além de irritar, dava depressão e vergonha. Pior ainda: o tatuador vinha constantemente perguntar quando terminaríamos o serviço. O jeito era dar de joão-sem-braço: “…então, assim que eu tiver grana. Tive uns gastos imprevistos aí…”.

Liso como uma lesma.

Março acabou, veio Abril. Começou uma incessante busca por estúdios de tattoo decentes e novamente voltei ao Tatuapé.

E me enganei redondamente quando achei que a história tava chegando ao fim.



A saga das tattoos inacabadas – parte 1
15/11/2009, 10:28
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Acho que foi em 2002 ou 2003 que fiz minha primeira tatuagem.

Não me lembro bem o que me motivou pra fazê-la, mas possivelmente teve a ver com (ter uma) identidade. Aí fui eu. Sem noção de nada, inclusive, de que, tatuadores amadores erram. E muito.

Num rolê pela vizinhança, vi uma plaquinha em uma casa. Dessas pretensiosas, tipo “Estúdio de tattoo”. E num momento em que a falta de noção transcendeu a sensatez, toquei a campainha. Primeiro fui atendido por cachorros chatos e barulhentos. Depois saiu o açougueiro-maconheiro tatuador, que me chamou pra entrar. Fui atendido em sua cozinha.

No decorrer da conversa, ele me contou que já teve um estúdio e que estava ali pra economizar. Tava passando um momento difícil de separação, tinha que pagar pensão pra filha. Coisas do tipo. Até aí, pra quem não tinha muita noção das coisas, ok. Ele me mostrou a sua pasta de desenhos… Sem contar no fato de que um de seus clientes, que também estava ali mostrou um trabalho em andamento. Achei razoável e apesar de não ter ficado encantado pensei: “…ah, um bagulho simples acho que rola…”.

Voltei mais tarde, naquela tarde gelada e com pouca segurança daquilo que ia fazer, levei a ideia do desenho. Uma estrela náutica. Na época, acho que me empolguei com o significado dela.

Depois de um tempo aguardando o cidadão (que dava indícios de ter usado alguma substância ilícita) riscar o papel vegetal para o decalque e tenso com os cachorros dele fazendo um barulho do cão (com perdão do trocadilho infame) do lado de fora, ele começou a traçar a tattoo. Isso. Ali mesmo. Na cozinha. Com panelas sujas e pratos na pia. Coisa de quem tinha acabado de jantar.

Durante a tattoo não me dei conta, afinal, era tudo muito novo. E também, acho que a luz da cozinha não era suficientemente forte pra eu ver o que tava sendo feito…

Depois de uns 20, 25 minutos ele disse: “… pronto!”. Quando olhei, lá estava. Toda torta e com dois lados coloridos, não respeitando o esquema que faz a estrela ser náutica, se é que você me entende. Por instantes, vivi momentos de furor e desespero. O que me fez perguntar, de forma cretina: “… não dá pra jogar um branco e corrigir isso?”. Não. Não dava. E nem o apelo dele do tipo: “… posso fazer um sombreado, pra acertar isso…”.

Não. Obrigado. Pinta tudo de preto.

E com a estrela pintada e o braço doendo, paguei os quarenta mangos mais caros da vida (até então) e fui embora, pra nunca mais sequer olhar pra cara do filho da puta daquele distinto sujeito limitado em sua capacidade artística e profissional.

Duro era esconder aquilo. Mas não foi tão difícil como imaginei que fosse. Ruim de fato era esconder aquilo de mim mesmo…

Epílogo.

tattoodan

Não repare nas pontas, por favor.

Meses depois, cansado de sentir depressão por ver um desenho tosco do inferno no meu ombro, superei o trauma e fui atrás de um estúdio decente.

Dei um rolê pelos arredores do Tatuapé e achei um estúdio que me pareceu simpático. Dessa vez, com mais critério. E por 5 vezes o que paguei na original, um tatuador refez o trampo. O resultado final não foi milagroso, mas em vista do original, dá pra dizer que melhorou coisa de 90%. Sem exageros.

Não é uma obra de arte, mas no final das contas gosto dela.

E mesmo com toda a bagagem e o aprendizado que esta tattoo me trouxe, o filme viria a se repetir anos depois…